25 janeiro 2007

Apenas brincando


"Quando estou construindo com blocos no quarto de brinquedos,
Por favor, não diga que estou apenas brincando,
Porque enquanto brinco, estou aprendendo sobre equilíbrio e formas.
Quando estou me fantasiando,
Arrumando a mesa e cuidando das bonecas.
Por favor, não me deixe ouvir você dizer ele está apenas brincando.
Porque enquanto eu brinco, eu aprendo.
Eu posso ser mãe ou pai algum dia.
Quando estou pintando até os cotovelos,
Ou de pé diante do cavalete, ou modelando argila,
Por favor, não diga que estou apenas brincando,
Porque enquanto eu brinco, eu aprendo.
Estou expressando e criando
Eu posso ser artista ou inventor algum dia.
Quando estou entretido com um quebra-cabeça ou com algum brinquedo na escola,
Por favor, não sinta que é um tempo perdido com brincadeiras.
Porque enquanto brinco, estou aprendendo.
Estou aprendendo a me concentrar e resolver problemas.
Eu posso estar numa empresa algum dia.
Quando você me vê aprendendo, cozinhando ou experimentando alimentos.
Por favor, não pense que porque me divirto, é apenas uma brincadeira.
Eu estou aprendendo a seguir instruções e perceber as diferenças.
Eu posso ser um chefe algum dia.
Quando você me vê aprendendo a pular, saltar, correr e movimentar meu corpo.
Por favor, não diga que estou apenas brincando.
Eu estou aprendendo como meu corpo funciona.
Eu posso ser um médico, enfermeiro ou um atleta algum dia.
Quando você me pergunta o que fiz na escola hoje.
E eu digo: eu brinquei.
Por favor, não me entenda mal.
Por que enquanto eu brinco, estou aprendendo.
Estou aprendendo a ter prazer e ser bem sucedido no trabalho.
Eu estou me preparando para o amanhã.
Hoje, eu sou uma criança e meu trabalho é brincar."

12 janeiro 2007

Minha filha, meu tesouro

Ela pegou a pasta de plástico azul cheia de fotos e recortes, jogou álcool e tocou fogo.
Sua menina era uma criança-prodígio, esperta, solícita, cantante, espirituosa.
Havia sido dotada pela natureza de grandes olhos verdes, que se tornaram seu passaporte e a esperança dos pais.
Um dia, a mãe a levou a uma agência de modelos pra fazer um book.
Lá, preencheu questionários e apresentou atestado de saúde.
As despesas logo começaram a aparecer: salão de beleza toda semana, visitas mais freqüentes ao dentista, aulas de canto e balé.
O quarto era uma overdose de pink: penteadeira, cadeira, espelho, almofadas.
Um dia chegou uma carta do Rio, com uma ficha de inscrição e um contrato em branco.
A mãe quase desmaiou, deslumbrada; mostrava o contrato às vizinhas e parentes:
“Ela vai ser modelo, ela foi, escolhida para uma gravação!”
Passou a caprichar mais na alimentação da menina com alimentos light, enquanto reduzia a própria ração.
Era investimento certo no futuro da “modelo” - que logo começou a se comportar como celebridade!
No recreio, adotava ares de quem concede entrevistas.
A dona da agência a fotografou e pediu 1.500 reais para novo book e uma revista.
Um mês depois, a revista saiu - não chegava a ser de circulação nacional, como prometido; era antes um jornaleco com fotos em preto e branco.
A mãe empenhou uns brincos e a aliança e pagou os 1.500 reais, tudo pelo futuro.
Novas fotos, novo book, não tinha mais jóias.
Passou a fazer faxina noturna em hotéis, só agüentou um mês, com dor lombar e varizes.
A menina, ansiosa, passou a ter dor de cabeça e fazer xixi na cama.
Chegou nova carta da agência, agradecendo a colaboração e, sem mais rodeios, dizia que a menina fora recusada para a gravação no Rio.
Ela juntou as fotos, cartas e contratos, botou na pastinha azul.
Como passara a ter insônia, ficou a noite toda olhando e revirando cada papel, cada foto.
Depois, tomou um copo de leite com um comprimido de Lexotan e uns biscoitos, deitou e apagou, sem conseguir descansar.
Quando acordou, deu uma surra na menina.
Com muita raiva, exausta, os olhos secos do sono atrasado, pegou a pasta, jogou álcool e tocou fogo.
E nunca mais se falou no assunto.